O Transtorno de Jogos pela Internet é caracterizado como a utilização persistente
e recorrente da internet para a participação em jogos individuais ou em grupo,
resultando em prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo. A literatura do
tema destaca sua semelhança com outros transtornos de dependência, tanto em
níveis neuroquímicos quanto clínicos e interventivos. Evidências sugerem que
intervenções não invasivas, como a Estimulação Transcraniana por Corrente
Contínua (ETCC) podem ser aliadas no tratamento do Transtorno de Jogos pela
Internet (IGD). Diante disso, a questão norteadora dessa dissertação foi: “Quais
são os efeitos agudos e/ou tardios da ETCC no controle inibitório e no desejo de
indivíduos com sintomatologia de IGD?”. O Estudo I desta dissertação apresenta
uma revisão sistemática com metanálise que avaliou, de forma crítica e
quantitativa, os efeitos da ETCC em indivíduos com sintomatologia de IGD, com
ênfase no controle inibitório e no desejo (Craving). Buscou-se também examinar
protocolos de estimulação, delineamentos experimentais, características das
amostras e resultados neurofisiológicos. A revisão foi conduzida, conforme
diretrizes PRISMA e Cochrane, com protocolo registrado na PROSPERO
(CRD42025615678). As buscas foram realizadas nas bases PubMed, Embase,
Cochrane, PsycInfo, CINAHL, Web of Science e, na forma de literatura cinza, no
Google Acadêmico. Nove estudos preencheram os critérios de elegibilidade,
totalizando 265 participantes (18–39 anos), predominantemente do sexo masculino. A maioria dos protocolos aplicou ETCC bilateral sobre o córtex pré- frontal dorsolateral, com intensidades entre 1,5 e 2 mA e número de sessões variando de 1 a 12. A análise qualitativa indicou tendência à melhora no controle inibitório, redução da impulsividade e diminuição do desejo subjetivo, além de alterações neurofisiológicas compatíveis com modulação de circuitos de recompensa e controle cognitivo. Contudo, as metanálises não identificaram efeitos estatisticamente significativos nem para desejo (g = 0,11; IC95% [−1,15, 1,37]; I2 = 78,34%) nem para controle inibitório (g = −0,30; IC95% [−0,76, 0,16]; I2 = 0%). Observou-se heterogeneidade protocolar, amostras reduzidas e risco de viés com “algumas preocupações” na maioria dos estudos. Embora a ETCC apresente plausibilidade neurobiológica e resultados preliminares promissores, as evidências atuais são insuficientes para sustentar sua aplicação clínica isolada no IGD. Estes achados iniciais forneceram base teórica e metodológica para o desenvolvimento do Estudo II que investigou, em delineamento experimental controlado, os efeitos da ETCC, operacionalizados por indicadores comportamentais e marcadores neurofisiológicos, sobre a modulação dos sintomas clínicos, do controle inibitório, do desejo e na conectividade funcional
em indivíduos com sintomatologia de IGD. Tratou-se de um ensaio clínico
randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Participaram indivíduos com
sintomatologia de IGD, alocados aleatoriamente em grupo ativo ou sham. A
ETCC foi aplicada bilateralmente sobre o córtex pré-frontal dorsolateral, com
intensidade de 2 mA e durante 10 sessões. Foram utilizadas como medidas o
IGDS9-SF para avaliação da sintomatologia clínica, tarefa Stop-Signal como
índice de controle inibitório, escala de desejo e registro eletroencefalográfico
(EEG). As análises da ANOVA não evidenciaram efeitos estatisticamente
significativos da ETCC sobre sintomas de IGD, controle inibitório (F(3, 33) =
1.37, p = .268, η2p = .11, ω2 = .02) ou desejo F(2.07, 22.80) = 4.81, p = .017, η2p
= .30, ω2 = .13), tampouco interação significativa grupo x tempo
(respectivamente, F(3, 33) = 0.13, p = .940, η2p = .01, ω2 ≈ .00; e F(2.07, 22.80)
= 0.31, p = .746, η2p = .03, ω2 ≈ .00). Da mesma forma, não foram observadas
alterações robustas nos marcadores eletrofisiológicos avaliados. Os achados
sugerem que, nas condições metodológicas empregadas, a ETCC isolada não
produziu efeitos clínicos ou cognitivos mensuráveis em indivíduos com IGD.
Discute-se que fatores como tamanho amostral, variabilidade individual na
responsividade à neuromodulação, parâmetros de estimulação e necessidade de
agrupamento com intervenções comportamentais podem ter influenciado os
resultados. Conclui-se que protocolos futuros devem considerar maior número de
sessões, estratégias combinadas e delineamentos com maior poder estatístico para
elucidar o potencial terapêutico da ETCC no IGD.